Nos últimos anos, o turismo brasileiro vem consolidando uma trajetória de expansão que poucos setores da economia conseguiram alcançar com tamanha consistência. A atividade não apenas recuperou as perdas impostas pela pandemia como ultrapassou, em diversos indicadores, os níveis registrados antes de 2020.
Estimativas recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontam que a alta temporada de 2025-2026 deverá movimentar cerca de R$ 218 bilhões, consolidando um dos melhores desempenhos da história do setor. Esse dinamismo não se limita ao faturamento. O turismo brasileiro já responde por mais de 3,5 milhões de empregos formais, distribuídos em atividades como hospedagem, alimentação fora do lar, transportes e entretenimento, além de milhares de postos de trabalho indiretos que se espalham por toda a cadeia produtiva.
Os números evidenciam uma realidade que a sociedade, o legislativo e o executivo brasileiros começam a perceber com maior nitidez: turismo não é apenas lazer ou deslocamento de pessoas. Trata-se de um setor estruturante, capaz de promover desenvolvimento regional, mobilidade social e inclusão produtiva em praticamente todos os municípios do país.
Nessa seara, ganha relevância um elemento muitas vezes invisível para o grande público, mas absolutamente decisivo para o avanço da atividade: o associativismo empresarial e a atuação das entidades de classe.
O turismo é, por natureza, um setor altamente fragmentado, reunindo desde grandes redes hoteleiras e operadores internacionais até pequenas pousadas familiares, restaurantes, agências de viagem, transportadoras turísticas e inúmeros prestadores de serviços que compõem a experiência do visitante.
Transformar essa diversidade em uma agenda comum exige organização institucional, capacidade técnica e interlocução permanente com o poder público. É exatamente nesse ponto que as entidades representativas, federações, confederações e sindicatos, assumem papel estratégico.
O exemplo mais emblemático dessa atuação foi a construção do PERSE – Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos, aprovado no contexto da pandemia. O programa tornou-se uma das políticas públicas mais relevantes já implementadas para a recuperação do turismo e da hospitalidade no Brasil. Seu desenho e aprovação foram fruto direto da articulação de entidades empresariais que souberam traduzir em linguagem técnica as necessidades do setor.
Situação semelhante ocorreu durante o debate da reforma tributária, quando a mobilização institucional garantiu o reconhecimento das especificidades da atividade turística e evitou distorções que poderiam comprometer a competitividade de empresas de hospedagem, alimentação e serviços turísticos. Esses avanços não são fruto do acaso. Eles refletem um trabalho contínuo de representação, estudo e diálogo institucional.
Mais recentemente, a discussão em torno da reorganização da jornada semanal, especialmente as propostas de alteração da escala de trabalho, trouxe novamente à tona a importância de uma abordagem responsável e técnica.
Entidades do setor produtivo, entre elas a CNC, subscreveram manifesto em defesa da manutenção do modelo constitucional que estabelece a jornada máxima de 44 horas semanais, com possibilidade de ajustes por meio de negociação coletiva.
A posição não decorre de resistência a avanços sociais, mas do reconhecimento de que setores como o turismo possuem características operacionais muito próprias. Hotéis, restaurantes, operadoras de turismo, parques temáticos e equipamentos turísticos funcionam sete dias por semana, muitas vezes 24 horas por dia, atendendo fluxos de visitantes que não obedecem a calendários convencionais. Por isso, a experiência internacional demonstra que soluções uniformes raramente funcionam para atividades intensivas em serviços. A negociação coletiva, realizada entre sindicatos patronais e laborais, permanece sendo o instrumento mais eficaz para equilibrar competitividade empresarial, geração de empregos e qualidade de vida do trabalhador.
Outro aspecto que reforça a importância do associativismo é a própria estrutura econômica do turismo. Diferentemente de setores industriais concentrados em determinados polos produtivos, a atividade turística se espalha pelo território nacional e impacta diretamente diversos segmentos econômicos diferentes, da agricultura ao transporte aéreo. Cada visitante que chega a um destino movimenta hotéis, bares, restaurantes, transportadoras, guias turísticos, comércio local e uma ampla cadeia de fornecedores. É por isso que o turismo costuma ser descrito como uma verdadeira economia em rede.
Coordenar interesses tão diversos exige instituições capazes de dialogar simultaneamente com governos, parlamentos, organismos internacionais e a sociedade civil. Nos últimos anos, iniciativas como o Vai Turismo – Rumo ao Futuro, projeto desenvolvido no âmbito da CNC, têm percorrido o país promovendo debates regionais, levantando propostas e consolidando uma agenda estratégica para o desenvolvimento do turismo brasileiro.
Iniciativas promovidas pela Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, como o Encontro FBHA – Integração do Turismo Regional, vêm criando espaços de articulação entre empresários, gestores públicos e lideranças locais, fortalecendo a cooperação entre destinos e ampliando oportunidades de investimento. Esses, assim como tantos outros fóruns, não são apenas eventos institucionais. São ambientes de construção de políticas públicas, de disseminação de conhecimento e de fortalecimento da governança do setor.
Enquanto o turismo brasileiro bate recordes de faturamento, fluxo de visitantes e geração de empregos, muitos empreendedores ainda se perguntam qual será o próximo passo para consolidar esse crescimento. A resposta passa, inevitavelmente, pelo fortalecimento das estruturas de representação empresarial.
O associativismo não é apenas uma tradição do setor terciário brasileiro; é uma ferramenta essencial para transformar demandas dispersas em políticas públicas consistentes. É por meio dele que o turismo conquista espaço na agenda nacional, amplia sua capacidade de diálogo institucional e reafirma seu papel como um dos motores do desenvolvimento econômico e social do país.
Ao longo de minha trajetória profissional, militando no turismo, tenho testemunhado o poder transformador dessa atuação coletiva. Num setor que conecta pessoas, culturas e destinos, a união institucional continua sendo a força que transforma potencial em realidade econômica.
